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Hotel cheio nem sempre lucra: o que a ocupação esconde

Na leitura de Gianmarco Marchetti, administrador da Marco Marchetti Hotéis Ltda., um hotel lotado pode fechar o mês com menos dinheiro do que um hotel com quartos vagos. A frase soa como contradição para quem aprendeu a medir o sucesso de uma hospedagem pelo movimento na recepção.

A taxa de ocupação continua sendo o número mais citado do setor, e com razão: ela é simples, diária e fácil de comparar. O problema começa quando esse indicador passa a responder sozinho uma pergunta que não é dele. Ocupação mede volume, e volume não paga contas por conta própria.

O que a fórmula da taxa de ocupação deixa de fora?

A conta é direta: diárias vendidas divididas por diárias disponíveis, multiplicadas por cem. Um corredor silencioso incomoda qualquer gestor, e um estacionamento cheio parece prova de que a estratégia funciona.

Só que a taxa de ocupação não carrega nenhuma informação sobre preço. Um quarto vendido com desconto agressivo conta exatamente o mesmo que um quarto vendido pela tarifa cheia. Quando a meta é apenas encher, a saída mais fácil costuma ser baixar a diária, e o indicador aplaude uma decisão que pode estar corroendo a receita. Há ainda um efeito mais lento: o hóspede que pagou pouco numa temporada passa a esperar o mesmo preço na seguinte, e a tarifa de referência do hotel escorrega sem que ninguém perceba.

O que o RevPAR revela e o que ele ainda esconde

Imagine um hotel de 100 quartos em duas semanas diferentes. Na primeira, opera com 90% de ocupação e diária média de R$ 300. Na segunda, fica em 75%, mas cobra R$ 380. A semana mais vazia gera R$ 285 por quarto disponível, contra R$ 270 da semana mais cheia.

Esse cálculo tem nome: RevPAR, a receita por quarto disponível, obtida ao multiplicar a diária média pela taxa de ocupação. Gianmarco Marchetti expressa que o indicador corrige a distorção mais comum, porque obriga preço e volume a aparecerem juntos. Ainda assim, o RevPAR considera apenas a receita de hospedagem e ignora quanto custou produzir cada diária.

Por que cada quarto vendido carrega custo próprio?

Todo quarto ocupado dispara uma sequência de despesas: arrumação, troca de enxoval, lavanderia, amenidades, energia do ar-condicionado e, muitas vezes, comissão de agência online. Um quarto vazio não gera nenhuma delas. Por isso, a diária vendida com desconto por um canal comissionado pode deixar uma margem muito menor do que o número da receita sugere. A comissão sai antes de qualquer outra despesa, e o que sobra ainda precisa pagar a equipe de arrumação, o sabão e a conta de luz.

Para enxergar isso, o setor usa o GOPPAR, sigla em inglês para lucro operacional bruto por quarto disponível. A conta parte da receita total do hotel, inclusive restaurante e demais serviços, subtrai as despesas operacionais e divide o resultado pelo número de quartos disponíveis no período.

Gianmarco Marchetti comenta que, na avaliação do administrador, a leitura conjunta dos três indicadores muda a conversa com a equipe comercial. A meta deixa de ser vender mais noites e passa a ser vender as noites certas, pelo canal certo e pelo preço que sustenta a operação.

A pergunta que o gestor passa a fazer

A ocupação responde quantos quartos foram vendidos. O RevPAR responde quanto cada quarto disponível faturou. O GOPPAR responde quanto cada um deles deixou de resultado depois de pagar a própria operação. Nesse quesito, Gianmarco Marchetti salienta que são três perguntas diferentes, e só a última conversa diretamente com a saúde financeira do negócio.

Isso não torna a ocupação inútil; na verdade, ela continua indispensável para escalar equipes, prever compras e planejar manutenção. O erro está em promovê-la a termômetro único de desempenho. Um hotel que acompanha apenas o próprio movimento corre o risco de trabalhar mais para ganhar menos, enquanto um concorrente com metade do barulho na recepção guarda a diferença no caixa.

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