Taiza Tosatt Eleoterio fala sobre como romper o ciclo da violência doméstica e seus obstáculos
A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade social e emocional, observa que romper o ciclo da violência doméstica raramente esbarra num único obstáculo isolado, mas numa combinação complexa de barreiras de naturezas bem diferentes que se somam ao longo de todo o processo de decisão.
Reconhecer essas barreiras separadamente e com bastante clareza ajuda a entender por que a saída de uma relação abusiva costuma levar muito mais tempo do que quem observa de fora costuma imaginar, sem nenhum julgamento apressado sobre o processo.
Obstáculos financeiros
A dependência financeira costuma ser um dos primeiros obstáculos concretos e mais imediatos. Taiza Tosatt Eleoterio explica que, sem renda própria, sem acesso a conta bancária independente ou sem histórico de trabalho recente no mercado, muitas mulheres enfrentam a perspectiva real e assustadora de não conseguir sustentar a si mesmas e aos filhos logo após a separação definitiva.
Esse tipo de barreira financeira raramente se resolve da noite para o dia de forma simples, exigindo planejamento cuidadoso e detalhado, apoio de programas sociais disponíveis na região e, muitas vezes, tempo considerável para reconstruir uma fonte de renda estável antes que a saída se torne viável na prática cotidiana.
Obstáculos emocionais
Medo, vergonha, dependência emocional e esperança persistente de que o relacionamento ainda possa mudar de verdade formam um conjunto de barreiras internas que operam independentemente da situação financeira ou social da mulher, muitas vezes de forma ainda mais poderosa do que qualquer obstáculo puramente externo e prático.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que esses obstáculos emocionais profundos costumam ser os mais difíceis de nomear para quem observa de fora, justamente por não deixarem marcas visíveis nem seguirem uma lógica que pareça imediatamente racional aos olhos de outra pessoa que não vive a mesma situação.
Obstáculos sociais e familiares
Pressão constante da própria família para “preservar o casamento a qualquer custo”, julgamento social duro sobre a decisão de sair e o medo real de perder a rede de convívio construída ao longo de muitos anos também funcionam como barreiras concretas e significativas, especialmente em comunidades menores ou mais tradicionais.
Esse tipo de obstáculo social e familiar costuma pesar de forma ainda mais particular quando a própria família de origem da mulher também minimiza ou nega completamente a gravidade da situação vivida, deixando-a completamente sem apoio justamente onde ela mais esperaria encontrá-lo naquele momento de fragilidade.
Obstáculos jurídicos e burocráticos
Uma outra questão a se considerar é que os processos legais são lentos e desgastantes, impondo uma dificuldade real de acesso a medidas protetivas em algumas regiões mais distantes do país, e a complexidade de disputas envolvendo guarda de filhos ou divisão de bens torna a saída ainda mais desgastante e demorada, mesmo depois que a decisão emocional já foi tomada com firmeza e clareza.
Esses obstáculos burocráticos e legais costumam surpreender bastante quem espera que, uma vez decidida a saída definitiva, o processo seguinte seja simples, rápido e direto, sem maiores complicações.
Entender a soma dos obstáculos evita julgamentos apressados
Em conclusão, Taiza Tosatt Eleoterio constata que nenhum desses obstáculos, isolado e sozinho, explica totalmente e por completo por que uma mulher permanece numa relação abusiva por mais tempo do que se esperaria de fora, sem conhecer todo o contexto envolvido.
É a combinação deles, muitas vezes simultânea, acumulada e reforçada ao longo do tempo, que sustenta a permanência prolongada na relação abusiva, e reconhecer essa complexidade real e multifacetada é o que permite oferecer apoio mais realista e eficaz, em vez de cobranças injustas que ignoram completamente o peso de tudo o que precisa ser enfrentado ao mesmo tempo por essa mulher.



