BIM ganha novas normas técnicas e muda o que arquitetos precisam saber sobre projetos digitais
Novas referências técnicas para compartilhamento de dados e segurança reforçam a transformação digital da arquitetura e da construção brasileira.
A transformação digital da construção civil ganhou novos parâmetros técnicos no Brasil em setembro. O boletim de normas técnicas divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) colocou em destaque referências relacionadas ao BIM, incluindo o padrão IFC para compartilhamento de dados entre sistemas e uma proposta baseada na ISO 19650-6, voltada à gestão de informações de saúde e segurança em obras. O movimento é relevante porque o BIM está deixando de ser apenas uma ferramenta de modelagem tridimensional para se tornar uma estrutura de organização das informações utilizadas durante todo o ciclo de vida de uma edificação.
Para arquitetos, engenheiros, construtoras e até proprietários de imóveis, surge uma dúvida cada vez mais importante: o que essas normas significam na prática e por que elas podem mudar a forma de projetar e construir? A resposta está na padronização. Quanto mais sistemas digitais participam de um empreendimento, maior é a necessidade de garantir que os dados possam ser compartilhados, interpretados e atualizados sem perder informações relevantes.
Por que as novas normas BIM importam para os projetos de arquitetura
O BIM, sigla para Building Information Modeling, permite reunir em um ambiente digital informações geométricas e técnicas de uma construção, conectando diferentes disciplinas e etapas do empreendimento. Em vez de trabalhar apenas com desenhos que representam paredes, portas, estruturas e instalações, o profissional passa a lidar com objetos que podem carregar propriedades, especificações e informações utilizadas posteriormente por outros participantes da obra. Essa característica faz com que a qualidade e a organização dos dados sejam tão importantes quanto a representação visual do projeto. O CAU/BR vem acompanhando essa transformação e destaca que o BIM pode ampliar a colaboração entre arquitetura, engenharia e outras áreas, além de apoiar projetos com maior eficiência ambiental.
O destaque dado pela CBIC ao projeto relacionado à ABNT NBR ISO 16739-1 ajuda a entender uma das principais dificuldades da digitalização: a comunicação entre diferentes softwares. O IFC, ou Industry Foundation Classes, funciona como um formato aberto voltado ao compartilhamento de informações da indústria da construção e da gestão de instalações. Quando diferentes plataformas conseguem interpretar informações de maneira padronizada, diminui a dependência de um único fornecedor de software e aumenta a possibilidade de integração entre equipes. A CBIC incluiu o tema entre as normas em evidência no boletim de agosto e setembro de 2026.
Para um escritório de arquitetura, essa mudança pode parecer inicialmente técnica, mas tem efeitos bastante concretos. Um modelo produzido em uma determinada plataforma pode precisar ser utilizado por profissionais de estruturas, instalações, orçamento, planejamento ou operação predial que trabalham em outros sistemas. Sem padrões de interoperabilidade, parte das informações pode ser perdida durante a conversão, obrigando equipes a refazer tarefas ou conferir manualmente dados que deveriam circular de maneira automatizada. A padronização, portanto, atua como uma espécie de infraestrutura invisível da transformação digital.
Essa questão ganha ainda mais importância conforme empresas começam a combinar BIM com inteligência artificial, automação e análise de dados. Em maio, durante o ENIC 2026, especialistas da CBIC discutiram justamente a combinação entre IA e BIM e apresentaram aplicações práticas da tecnologia na construção. Em um dos casos relatados, um modelo BIM foi utilizado como base para gerar uma simulação visual da evolução da obra com apoio de inteligência artificial, mostrando como as tecnologias podem trabalhar juntas em processos de comunicação e tomada de decisão.
Segurança e informação passam a fazer parte do modelo digital
Outro ponto relevante do boletim da CBIC é a referência ao projeto ABNT NBR ISO PR 19650-6, relacionado à organização e digitalização das informações de edifícios e obras de engenharia civil, com foco na gestão de informações de saúde e segurança. A inclusão desse tema mostra que o BIM começa a ultrapassar a finalidade de coordenar desenhos e instalações. As informações digitais podem também apoiar processos relacionados à prevenção de riscos, planejamento de atividades e gestão da segurança durante diferentes etapas da construção.
Essa evolução modifica a maneira como arquitetos e engenheiros podem pensar o projeto. Uma decisão tomada ainda na fase de concepção pode influenciar a segurança da execução, a manutenção futura e até a forma como determinados equipamentos serão acessados. Quando essas informações ficam estruturadas no ambiente digital, elas podem ser consultadas por diferentes equipes ao longo do empreendimento, desde que os responsáveis definam corretamente quais dados precisam ser registrados e mantidos atualizados.
A consequência é uma valorização crescente da chamada gestão da informação. Não basta produzir um modelo visualmente detalhado se os dados não estiverem organizados segundo critérios que permitam seu uso por outras equipes. O profissional que trabalha com BIM precisa compreender não apenas ferramentas de modelagem, mas também processos de coordenação, nomenclaturas, padrões, responsabilidades, revisão e troca de informações. O próprio CAU/BR vem desenvolvendo iniciativas de capacitação e guias de contratação BIM, além de discutir uma matriz de competências para profissionais de arquitetura e urbanismo.
Essa transformação também tem relação direta com a contratação pública. O CAU/BR destaca que a legislação brasileira estabelece o uso preferencial do BIM em licitações e contratos de obras e serviços de engenharia, o que aumenta a importância de profissionais e empresas compreenderem como entregar informações digitais de maneira organizada. O Conselho também participa de iniciativas de capacitação de agentes públicos para ampliar o conhecimento sobre contratação, fiscalização e gestão de obras utilizando BIM.
Para construtoras, isso significa que a preparação para projetos digitais não deve ficar concentrada em uma única pessoa responsável pelo software. A experiência apresentada pela CBIC no ENIC 2026 reforçou justamente a dimensão organizacional do BIM: implantação, diagnóstico, capacitação e mudança de processos podem levar anos. Em um caso relatado durante o evento, uma empresa levou cerca de quatro anos entre diagnóstico, estruturação e piloto operacional com BIM 4D, enquanto outro empreendimento conseguiu reduzir significativamente o tempo de análise de processos ao utilizar um ambiente comum de dados.
Como arquitetos e construtoras podem se preparar para essa nova etapa
A consolidação de padrões como IFC e das referências da família ISO 19650 indica que a próxima etapa do BIM será menos dependente de modelos isolados e mais orientada à circulação de informações. Para arquitetos, isso significa que aprender uma ferramenta específica continuará sendo útil, mas não será suficiente para acompanhar a evolução do mercado. Será cada vez mais importante compreender como o modelo é estruturado, quais informações devem ser entregues, quem utilizará esses dados e como eles serão atualizados ao longo do empreendimento.
O CAU/BR já aponta a necessidade de capacitação de pequenos e médios escritórios e profissionais autônomos, especialmente porque a adoção tecnológica não ocorre de maneira uniforme entre empresas. O Conselho também relaciona BIM a simulações de desempenho, fabricação digital, geoprocessamento e outras tecnologias incorporadas à formação contemporânea em arquitetura e urbanismo. Isso indica que o profissional do futuro precisará transitar entre conhecimento arquitetônico tradicional e ferramentas digitais capazes de analisar diferentes cenários antes da construção.
Para construtoras e incorporadoras, o desafio está em transformar o BIM de um requisito de projeto em uma metodologia de gestão. Isso envolve definir padrões internos, ambientes comuns de dados, responsabilidades e processos de validação. Também significa estabelecer quais informações realmente serão úteis durante orçamento, planejamento, execução, entrega e manutenção, evitando modelos excessivamente complexos que gerem custo sem produzir benefícios proporcionais.
Para o consumidor de imóveis, a mudança tende a aparecer de forma menos evidente, mas pode produzir efeitos importantes. Um projeto melhor coordenado pode reduzir conflitos entre instalações, antecipar problemas construtivos e facilitar futuras intervenções no imóvel. Em empreendimentos que mantêm informações digitais após a entrega, o modelo pode ainda apoiar manutenção e reformas, permitindo localizar sistemas e componentes com mais precisão.
A tecnologia também pode ajudar a aproximar sustentabilidade e arquitetura. O próprio CAU/BR aponta que o BIM pode apoiar projetos voltados a conforto térmico, iluminação, ventilação e uso racional de materiais. Com modelos digitais mais estruturados, torna-se possível comparar alternativas de projeto e analisar impactos antes que decisões sejam executadas fisicamente, reduzindo parte do custo associado a alterações tardias.
O que está acontecendo agora, portanto, é mais profundo do que uma atualização de normas técnicas. A construção brasileira está criando uma linguagem digital comum para que arquitetos, engenheiros, fabricantes, construtoras e gestores possam trabalhar com as mesmas informações. A consolidação de padrões de interoperabilidade e segurança tende a abrir espaço para aplicações mais avançadas de inteligência artificial, automação e análise de desempenho. Para quem atua no setor, acompanhar essa evolução significa entender que o futuro do projeto arquitetônico não será apenas tridimensional: ele será cada vez mais informacional, colaborativo e conectado ao ciclo completo da construção.
Fontes verificáveis: CBIC — Boletim de Normas Técnicas de agosto e setembro de 2026; CAU/BR — BIM e transformação digital na arquitetura e urbanismo; CAU/BR — ações para fortalecer o uso do BIM no Brasil; CBIC — IA pode ajudar na aceleração da adoção do BIM.



