BIM e inteligência artificial: a dupla que está redefinindo a construção civil no Brasil
Uso do BIM mais que dobrou em seis anos no país, e especialistas reunidos no BIM Fórum Conference 2026 apontam a inteligência artificial como o próximo grande salto de produtividade do setor
O uso do Building Information Modeling, mais conhecido pela sigla BIM, deu um salto considerável no Brasil na última década. Essa metodologia, que permite representar digitalmente todas as informações de um projeto de construção em um único modelo tridimensional, deixou de ser uma novidade restrita a grandes escritórios e passou a fazer parte da rotina de empresas de diferentes portes. Dados da FGV IBRE mostram que o uso do BIM pelas empresas de construção do país mais que dobrou em seis anos, passando de 9,2% em 2018 para 20,6% em 2024. Casa e Mercado
Agora, o setor vive um novo capítulo dessa transformação digital com a chegada cada vez mais intensa da inteligência artificial aos fluxos de projeto. Para especialistas, é justamente essa combinação entre metodologia BIM e IA que deve definir os próximos passos da arquitetura, da engenharia e da construção civil no Brasil.
O que foi discutido no BIM Fórum Conference 2026
O tema ganhou destaque em maio, durante o BIM Fórum Conference 2026, realizado em São Paulo, e reuniu especialistas e executivos do setor para debater os avanços já conquistados e as expectativas para os próximos anos. No painel sobre IA e construção digital, Ruben Millon, arquiteto sênior da Konigsberger Vannucchi Arquitetos e representante da Graphisoft, referência global em soluções BIM, afirmou que a inteligência artificial vai impulsionar uma transformação que o BIM já havia iniciado, deslocando o setor de um modelo centrado apenas em representação visual para um modelo centrado em dados. Casa e Mercado
Essa mudança de lógica não é apenas técnica, é estrutural. Segundo Millon, a tendência é que não existam mais projetos concebidos desde o início sem uma estratégia orientada por dados, o que exige das empresas um redesenho completo dos próprios modelos de valor, colocando informação e inteligência artificial no centro das operações, e não mais como ferramentas de apoio pontual. Casa e Mercado
Design generativo e decisões tomadas antes que os problemas apareçam
Um dos pontos mais interessantes levantados por Millon durante o painel foi o papel crescente do design generativo colaborativo. Segundo ele, o cruzamento de dados viabilizado pela inteligência artificial deve acelerar o uso de recursos como tomada de decisão preditiva, tornando essas ferramentas as principais frentes de criação de valor dentro do BIM. Na prática, isso significa que escritórios com um bom histórico de dados estruturados de projetos anteriores passam a ter uma vantagem competitiva real, já que a inteligência artificial permite antecipar riscos de prazo, custo e qualidade antes que eles se tornem problemas concretos durante a obra. Casa e Mercado
Esse tipo de antecipação muda a forma como equipes de projeto e de obra se relacionam. Em vez de corrigir problemas depois que eles aparecem no canteiro, a ideia é identificá-los ainda na fase digital, quando o custo de correção é muito menor.
A chegada dos agentes de inteligência artificial ao BIM
Outra frente discutida no evento foi a integração cada vez maior entre softwares de BIM e agentes de inteligência artificial, sistemas capazes de ir além de responder perguntas ou gerar textos automaticamente. De acordo com Millon, a indústria está cada vez mais receptiva a softwares que conversam diretamente com agentes de IA, sistemas que criam planos estratégicos, tomam decisões e utilizam ferramentas por conta própria com mínima intervenção humana. Esse movimento deve transformar profundamente a maneira como as informações são produzidas, processadas e utilizadas ao longo de todo o ciclo de um projeto. Casa e Mercado
Da documentação técnica a um sistema vivo de operação
Um dos pontos mais relevantes do debate foi a ideia de que o BIM deixará de ser apenas um entregável ao fim do projeto. A expectativa é que os modelos se transformem em plataformas inteligentes de operação dos ativos, integrando sensores, internet das coisas e inteligência artificial durante toda a vida útil dos empreendimentos, e não apenas durante a fase de construção. Segundo Millon, é justamente nesse ciclo de vida completo que está o maior potencial econômico do setor, já que o BIM passaria a funcionar como um sistema vivo de operação do ativo, e não apenas como um conjunto de plantas digitais arquivado ao final da obra. Casa e Mercado
Avanços ainda pontuais no dia a dia técnico
Apesar do entusiasmo em torno do tema, a adoção em escala ainda é um desafio real para boa parte do mercado. As aplicações concretas hoje já existem em extração automática de quantitativos, detecção de interferências entre sistemas e geração de documentação técnica com modelos de linguagem, mas ainda de forma bastante pontual. Esse cenário também foi reforçado em outro evento do setor: durante painel no Encontro Internacional da Indústria da Construção, promovido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção em São Paulo, a arquiteta Lívia Guerra defendeu que a combinação entre BIM e inteligência artificial pode acelerar a difusão e a implementação da modelagem digital na construção civil, reforçando que a IA pode funcionar como um catalisador para derrubar as barreiras de adoção do BIM no país. Casa e MercadoCBIC
A maturidade na gestão da informação aparece como o fator decisivo para que empresas consigam sair do estágio de testes isolados e realmente escalar o uso da tecnologia. Normas e frameworks voltados à governança de dados, como a ISO 19650, podem viabilizar essa adoção em maior escala, segundo Millon, que resume o desafio como uma corrida em velocidades diferentes: a inteligência artificial avança rápido, mas a maturidade dos dados das empresas avança devagar. Casa e Mercado
O arquiteto continua no centro da decisão
Por fim, vale destacar um ponto de consenso entre os especialistas ouvidos nos dois eventos: a inteligência artificial não chega para substituir arquitetos e engenheiros, mas para ampliar a capacidade analítica e criativa desses profissionais. Millon defende que o avanço da IA deve liberar mais tempo para atividades que envolvam julgamento técnico, criatividade, estratégia e relacionamento com o cliente, funções que dependem da experiência humana e não podem ser totalmente automatizadas. Casa e Mercado
Para escritórios brasileiros de todos os tamanhos, o caminho parece cada vez mais claro. Quem estruturar bem seus dados de projeto hoje, padronizando processos e investindo em governança de informação, sairá na frente quando a integração entre BIM e inteligência artificial se tornar padrão consolidado de mercado, e não mais uma exceção restrita aos grandes escritórios.
Fontes consultadas:
Casa e Mercado: https://casaemercado.com.br/bim-e-ia-devem-alavancar-o-uso-de-dados-na-industria-da-construcao-no-brasil/
CBIC: https://cbic.org.br/ia-pode-ajudar-na-aceleracao-da-adocao-do-bim-pelas-empresas/
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



