Construção civil volta a crescer no Brasil: o que explica a recuperação do setor em 2026
Alta de 2,9% no primeiro trimestre reacende o otimismo do mercado, mas juros elevados e custo da mão de obra seguem como obstáculos.
Depois de fechar 2025 em ritmo mais fraco, a construção civil brasileira voltou a acelerar nos primeiros meses deste ano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o setor cresceu 2,9% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com os três últimos meses do ano anterior, revertendo a queda de 2,4% registrada no quarto trimestre de 2025 e sinalizando uma retomada do ritmo de atividade da construção. O resultado chamou atenção porque veio acompanhado de geração de empregos e de aumento nos lançamentos imobiliários. Para quem pensa em comprar um imóvel, iniciar uma reforma ou apenas entender como o setor influencia o custo de vida, a pergunta é direta: essa retomada tem fôlego para continuar ao longo do ano? A resposta passa pelo comportamento da Selic, pelo volume de recursos do FGTS para habitação popular e por um mercado de trabalho que segue como um dos pontos fortes da economia neste início de 2026.
O que os números do IBGE revelam sobre a retomada
O avanço de 2,9% da construção no primeiro trimestre ajudou a puxar o desempenho de toda a indústria brasileira, que cresceu 1% no período, enquanto a economia nacional avançou 1,1%, com expansão de 2% na agropecuária e de 0,5% no setor de serviços. Outro indicador relevante foi a Formação Bruta de Capital Fixo, que mede os investimentos realizados no país e tem participação expressiva da construção civil: o indicador cresceu 3,5%, levando a taxa de investimentos de 16% para 16,5% do PIB, ainda distante da média mundial. Segundo a economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), os números reforçam a expectativa de crescimento do setor neste ano, impulsionados pelo volume recorde de recursos do FGTS para habitação popular e pelas medidas de incentivo ao programa Minha Casa, Minha Vida. CBIC + 2
O desempenho também aparece no mercado imobiliário e no emprego. De acordo com os indicadores da CBIC, os lançamentos imobiliários cresceram quase 14% em 2025, somando mais de 470 mil unidades, enquanto as vendas avançaram acima de 7%, ultrapassando 433 mil unidades comercializadas. Como esse tipo de empreendimento leva anos até a entrega, a expectativa é que esses projetos continuem gerando atividade econômica nos próximos exercícios. No campo do trabalho, dados do Novo Caged mostram que a construção foi o segundo setor que mais gerou empregos formais entre janeiro e abril de 2026, com mais de 143 mil vagas criadas, equivalente a 20,5% de todas as vagas abertas no país e um crescimento de 8,11% frente ao mesmo período do ano anterior. A CBIC projeta expansão de 1,2% para o PIB da construção neste ano, o terceiro consecutivo de crescimento do setor.
Por que a construção voltou a acelerar
A retomada não é fruto de um único fator, mas de uma combinação de estímulos que vinham sendo esperados pelo mercado. O primeiro deles é o início do ciclo de queda da Selic, que reduz o custo do crédito para incorporadoras e para famílias que dependem de financiamento habitacional. Some se a isso o orçamento recorde do FGTS destinado à habitação popular e a continuidade das contratações do Minha Casa, Minha Vida, programas que sustentam boa parte da demanda por novos empreendimentos residenciais. Os investimentos em infraestrutura completam esse cenário, já que obras públicas e concessões também entram na conta do PIB da construção e ajudam a explicar por que o setor cresce mais rápido que a média da economia neste início de ano.
Nem tudo, porém, é motivo de comemoração para quem está à frente das empresas do setor. A carga tributária elevada se consolidou como uma das principais preocupações dos empresários, especialmente diante das incertezas sobre os efeitos da reforma tributária nas obrigações acessórias e nos incentivos fiscais existentes. Os juros, mesmo em trajetória de queda, ainda permanecem em patamar que encarece o financiamento de projetos de médio e grande porte. E a escassez de mão de obra qualificada continua entre os cinco principais obstáculos apontados pelas construtoras, um problema estrutural que já vem sendo debatido em feiras e eventos do setor ao longo do primeiro semestre.
O que essa retomada significa para quem vai construir ou comprar um imóvel
Para o consumidor final, a combinação de mais crédito disponível e Selic em queda tende a facilitar o acesso a financiamentos habitacionais, especialmente dentro de programas com recursos do FGTS. Isso não significa, no entanto, que os custos de uma obra fiquem automaticamente mais baixos. O preço de insumos como cimento e mão de obra especializada segue pressionado, o que impacta diretamente o orçamento de quem pretende construir ou reformar neste ano. Antecipar decisões, comparar orçamentos e entender o momento de crédito mais favorável são passos importantes para quem quer aproveitar a retomada sem se surpreender com custos adicionais no meio do caminho.
Do lado das empresas, o cenário reforça a necessidade de planejamento financeiro mais rigoroso, já que o crescimento do setor convive com uma estrutura de custos ainda elevada. Arquitetos, construtoras e incorporadoras que conseguirem equilibrar esses dois lados, aproveitando a demanda aquecida sem perder o controle sobre despesas, tendem a se beneficiar mais da fase de recuperação que se desenha para 2026.
A retomada da construção civil brasileira no início de 2026 confirma uma trajetória de recuperação gradual, sustentada por crédito habitacional, investimentos em infraestrutura e um mercado de trabalho resiliente. Ainda assim, o setor segue lidando com desafios conhecidos: juros que impactam o custo do financiamento, carga tributária em debate no Congresso e falta de profissionais qualificados em diversas regiões do país. Acompanhar os próximos indicadores do IBGE e da CBIC ao longo do ano será a melhor forma de saber se essa recuperação vai se consolidar ou perder força pelo caminho.
Fontes consultadas: https://cbic.org.br/construcao-cresce-29-no-primeiro-trimestre-de-2026/ | https://www.infomoney.com.br/economia/construcao-civil-cresce-com-a-forca-do-emprego-mas-juros-e-custos-pressionam-o-setor/



